sábado, 14 de junho de 2008

meu pé de amora.

era um final de semana daqueles que prometem: festa de aniversário de um amigo e tudo. eu tinha só 14 anos e uma vida social em guarapari, litoral do ES. acordei num dia lindo, dormindo na cama dos meus pais, por que tinha muito medo de coisas que "não existem". levantei, ajudei mamãe com um suco e fui levar para o meu pai, que, segundo ele, tinha ido dormir no meu quarto porque mamãe roncava como um boeing. ele falava esquisito. disse que era só uma dor de cabeça. chamei a senhora de tudo, minha mãe.
meu medo, do que não existia, ficou próximo. eu não sabia se sabia ou se estava interpretando o desespero. tanta novela nessa vida. coloquei uma roupa, com a preocupação de ser a melhor. mamãe não. do jeito que estava, ligou em pânico pra tanta gente. enquanto eu, sem pressa, me arrumava, sempre assim...

fomos para o hospital e em questões de segundos, estávamos na capital, em busca de recursos. ele perdeu a fala e os movimentos naquele dia por conta de um derrame cerebral.
um pé de amora, pedaço de amor que só se via. nunca mais me levaria ao colégio, nunca mais cantaria um samba e nem recitaria poesias. não jogaria baralhos, não discutiria relações e nem visitaria diariamente sua plantação de cocos.

meu pai era um cara bacana, tinha uma cara emburrado, idade de e tanta história pra me contar...
minha mãe sempre foi legal, mas ele era tão legal que eu nunca tinha parado pra reparar nela.
as coisas tomaram proporções enormes e eu virei gente grande sem sentir. mesmo que isso tenha durado só um ano.
foram 5 meses entre UTI, quarto, UTI, vai pra casa, não vai... e eu, naquela cidade ovo, casa de uns e outros, oitava série e recuperação em física.
o ano parecia gigante, ou pequeno, não sei. tem horas nessa vida que a gente não entende muito bem o numero de horas do dia. e mesmo assim, a vida de 14 anos ainda existia, de vez em quando.
achei que fosse tudo voltar ao normal, que era "uma fase". o ser humano sempre se segura no clichê "vai passar", irracionalmente ou não. e passa mesmo.
a vida é uma sucessão de clichês e nessa divisão de vida e morte, você se depara com uma infinidade deles. todo mundo me ligava enquanto ele estava no hospital, eram tantos abraços e amigos da família aparecendo. mais amigos da minha mãe que dele, que, crítico demais,
não fazia questão de muitos. mas sempre fez de mim.

eu recordo de pouca coisa. uma amnésia expontânea que todo mundo tem quando toma um choque. entre aniversário dele, natal e reveillon, o clima era de ida. a partir daí, o natal ficou fosco.
num dia destes, eu saía a noite e com um nó na garganta, eu disse que o amava. uma enfermeira dava uma sopa daquelas que eu tenho certeza que ele não estava vendo a mínima graça e ele, com uma dificuldade gigante, levantou a mão e pela traqueostomia, com uma voz robótica disse que que me amava também.
nunca me lembro disso sem encharcar os olhos. nenhum outro homem dirá algo semelhante de forma tão sincera. e eu nunca mais deixei de falar o que sentia.
no dia 08 de janeiro de 2003, meu pé de amora secou. e entre o meu egoísmo adolescente e a maturidade que veio do nada, dei o tchau mais confuso de todos.
passaram 5 anos, namorei, "emulherei" e virei amiga da minha mãe, mesmo sendo dificílimo conviver com outra mulher, tendo morado dentro dela e sendo uma, vira e mexe,
reclamo de ter tido pouco tempo pra aprender mais com ele. acho que vivo nessa busca e ele tá lá, na areia de copacabana, no samba da vila isabel, na agência do banco do brasil e nas ruas de guarapari.
preciso busca-lo pra pôr em mim.

3 comentários:

ignez disse...

é um nó na garganta.

Anônimo disse...

...

ignez disse...

atualiza isso aqui!